A verdadeira origem da cantiga “Escravos de Jó”: entre fé, resistência e memória africana

O nome é amplamente conhecido graças ao Livro de Jó, no Antigo Testamento, que narra a história de um homem rico e temente a Deus, dono de milhares de ovelhas, camelos, bois e servos. Segundo a narrativa, Deus permite que o diabo teste a fé de Jó, tirando-lhe tudo: bens, família e saúde. Mesmo diante da dor, Jó mantém a sua fé, tornando-se símbolo de resiliência e obediência divina. No fim, Deus o recompensa, restaurando suas riquezas e família.

No entanto, apesar da familiaridade do nome, o Jó bíblico e a cantiga brasileira “Escravos de Jó” não têm ligação direta. A confusão nasce da homonímia, mas as origens da canção são bem mais profundas e ligadas à história da escravidão no Brasil.

“Escravos de njó”: a interpretação africana da cantiga

De acordo com a linguista Yeda Pessoa de Castro, uma das maiores especialistas em línguas africanas no Brasil, o nome original da cantiga provavelmente era “escravos de njó”, e não “escravos de Jó”.
O termo “njó” vem do quimbundo, idioma bantu falado em Angola, e significa “da casa” ou “doméstico”. Assim, a expressão “escravos de njó” se referiria às pessoas escravizadas que trabalhavam dentro das casas senhoriais durante o período colonial brasileiro.

Yeda também explica que o “caxangá” mencionado na canção pode se referir a um jogo de tabuleiro tradicional africano, usado tanto como forma de lazer quanto como prática simbólica de resistência e preservação cultural.

O enigma do “caxangá” e suas múltiplas origens

A palavra “caxangá” possui diversas interpretações possíveis. Alguns estudiosos a associam ao tupi antigo, com significados ligados à natureza, como “mata estendida” (caa-çanáb) ou “mato do vale dilatado” (caa-çang-guá).
Curiosamente, “Caxangá” é também o nome de um bairro de Recife, um tipo de chapéu redondo usado por marinheiros e até de um siri (siri-caxangá).
Além disso, Milton Nascimento e Fernando Brant eternizaram o termo em sua canção Caxangá, que fala sobre o trabalho, os sonhos e a resistência do povo brasileiro — uma temática que ecoa, de certa forma, a origem ancestral da cantiga infantil.

“Zigue-zigue-zá”: a senha para a liberdade

O livro Memória das Palavras Afro-brasileiras (2024), publicado em parceria entre o Governo Federal, a Fundação Cultural Palmares e a Universidade Federal do Paraná, apresenta uma teoria marcante: “Escravos de Jó” seria uma versão colonizada da música africana “Guerreiros Nagô”, entoada por escravizados após longos dias de trabalho.

Segundo essa tradição oral, o verso “fazem zigue-zigue-zá” representava o momento da fuga, em que os escravos corriam em ziguezague para despistar os capitães do mato.
A canção, portanto, teria dupla função: entretenimento e resistência. Ao transformá-la em um jogo infantil, os senhores de engenho teriam domesticado o seu sentido original, forçando os escravizados a cantá-la sentados e passando um objeto de mão em mão, transformando o gesto de fuga em um ato de submissão simbólica.

Entre o sagrado e o profano: uma canção de resistência

Reunindo todas essas interpretações, “Escravos de Jó” pode ser entendida como um legado de resistência africana disfarçado de brincadeira popular.
Os “escravos de njó” seriam, portanto, os africanos escravizados que cantavam e jogavam em segredo, preparando-se para fugir em grupo para os quilombos — o “mato do caxangá” —, movendo-se em ziguezague para confundir seus perseguidores.

Embora a verdadeira origem possa jamais ser totalmente confirmada, a cantiga permanece como um símbolo poderoso da herança afro-brasileira, onde música, fé e liberdade se entrelaçam em uma narrativa que resiste ao esquecimento.

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