Uma montanha de parmesão e a longa história do queijo

No século 14, em meio ao clima sombrio deixado pela peste negra, Giovanni Boccaccio escreveu o Decamerão, uma coleção de novelas repletas de humor e sátira. Em uma delas, três pintores florentinos partem em busca de uma pedra mágica chamada heliotropo e acabam chegando a Bengodi, uma terra imaginária de abundância sem limites. Ali, segundo o autor, havia uma montanha feita de queijo parmesão ralado, de onde caíam macarrão e ravioli cozidos em caldo de capão, enquanto riachos de vinho Vernaccia corriam livremente. Uma imagem fantástica, que mistura fome medieval, criatividade literária e o fascínio por um alimento que já era considerado nobre: o parmesão.

O nascimento do parmesão e a tradição italiana

O queijo parmesão surgiu no século 12, entre Parma e Reggio Emilia, quando monges beneditinos e cistercienses desenvolveram técnicas para produzir um queijo duro, de longa maturação e fácil de conservar. A fama se espalhou rapidamente, e no tempo de Boccaccio já era uma iguaria de prestígio. Até hoje, o Parmigiano Reggiano é símbolo de qualidade e uma das maiores expressões da cultura alimentar italiana.

As origens mais antigas do queijo

Embora o parmesão seja célebre, o queijo em si é muito mais antigo. Estudos arqueológicos indicam que sua invenção remonta à domesticação de ovelhas, há 8 a 10 mil anos. Em 2013, um estudo publicado na revista Nature mostrou resíduos de gordura láctea em cerâmicas perfuradas do sexto milênio a.C. no norte da Europa — evidência clara de que o queijo já era fabricado há cerca de 7 mil anos.

A tradição também aparece na mitologia grega, com o deus Aristeu, patrono da agricultura e da fabricação de queijos, e na Odisseia, onde Polifemo coalha o leite de suas cabras e o conserva em cestos. Já os romanos não só consumiam como documentaram variedades regionais. Plínio, o Velho, no ano 77, descreveu queijos frescos e maduros e exaltou os mais apreciados em Roma. As legiões, por sua vez, marchavam abastecidas com Pecorino Romano, resistente e nutritivo, ainda hoje produzido com receita semelhante.

Queijos milenares e descobertas arqueológicas

Um dos achados mais fascinantes aconteceu em 2018: arqueólogos encontraram um queijo de 3.200 anos em uma tumba egípcia. O alimento, preservado em um vaso, tornou-se a prova definitiva de que os antigos egípcios também dominavam a técnica, já sugerida em murais e registros funerários. Esse é, até hoje, o queijo mais antigo encontrado no planeta.

A expansão do queijo pelo mundo

A produção de queijos se espalhou pela Europa medieval. O Gorgonzola começou a ser feito no Vale do Pó em 879 d.C., enquanto o Roquefort aparece em documentos do mosteiro de Conques em 1070. Com a colonização inglesa, o queijo cruzou o Atlântico no século 17 e ganhou espaço nas Américas, especialmente nos Estados Unidos.

No Brasil, o queijo chegou com os portugueses. A criação de gado leiteiro tornou-se essencial após o descobrimento. No século 17, durante o Ciclo da Mineração, a produção se intensificou em Minas Gerais, Bahia, Goiás e Mato Grosso. Na Serra da Canastra nasceu o Queijo Minas Artesanal, que hoje é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo IPHAN. Outras variedades típicas brasileiras incluem o Queijo Coalho, tradicional do Nordeste, o Colonial do Sul, o Serrano do Rio Grande do Sul e o requeijão, amplamente difundido no Sudeste e no Nordeste.

Um alimento universal

Atualmente, estima-se que existam pelo menos 400 tipos de queijo catalogados, embora alguns registros falem em mais de mil variedades. Do parmesão ao gorgonzola, do cheddar ao minas artesanal, o queijo continua a unir culturas, atravessar fronteiras e reinventar tradições.

Se Boccaccio tivesse razão, viver em um mundo onde montanhas de parmesão alimentassem multidões talvez fosse uma fantasia irresistível. Mas, de certa forma, sua metáfora já se realizou: o queijo tornou-se uma paixão universal e um dos símbolos mais ricos da criatividade humana na cozinha.

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