Em 2024, o consumo mundial de petróleo chegou a cerca de 101,4 milhões de barris por dia, dando origem a diversos derivados, como gasolina, diesel, querosene de aviação e óleo combustível. Apenas no Brasil, foram comercializados 133,1 bilhões de litros de combustíveis líquidos automotivos, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo. O que muita gente desconhece é que a gasolina utilizada no Brasil pode ser bastante diferente daquela encontrada em outros países, resultado direto de leis, clima, políticas energéticas e normas ambientais que moldam a “receita” do combustível ao redor do mundo.

Octanagem e desempenho do motor
A octanagem é o principal fator que diferencia a gasolina entre os países. Ela mede a resistência do combustível à detonação prematura durante a compressão no motor. Quando a octanagem é inadequada para o tipo de motor, pode ocorrer a chamada batida de pino, reduzindo desempenho e causando danos mecânicos.
No Brasil, a gasolina comum possui octanagem mínima de 87 IAD, enquanto a gasolina premium apresenta valores mais elevados, adequados a motores de maior compressão, comuns em veículos importados ou de alto desempenho. Em comparação, nos Estados Unidos o padrão mais comum é 87 AKI, e na Europa predomina a gasolina 95 RON. Apesar de os números parecerem diferentes, muitas vezes tratam da mesma resistência medida por escalas distintas.
Historicamente, o Brasil já teve padrões mais baixos de octanagem. Dois avanços importantes marcaram a evolução do combustível nacional: a eliminação do chumbo tetraetila em 1992 e a redução drástica do enxofre em 2014, de 800 para 50 ppm.
Ajustes na gasolina por causa do clima
O clima também influencia diretamente a formulação da gasolina. Em países frios, como Canadá e Noruega, o combustível precisa ser mais volátil para facilitar a partida do motor em baixas temperaturas. Já em regiões quentes, como Brasil, Índia e Oriente Médio, a gasolina é menos volátil para evitar evaporação excessiva, aumento da poluição e problemas como o vapor lock.
Esses ajustes são feitos principalmente por meio do controle da pressão de vapor e da escolha dos hidrocarbonetos usados na mistura. Alguns países chegam a alterar a composição da gasolina conforme a estação do ano.
Teor de enxofre e impacto ambiental
O enxofre está naturalmente presente no petróleo bruto, mas é altamente indesejável. Ele prejudica catalisadores automotivos e aumenta a poluição. Por isso, durante o refino, busca se remover o máximo possível dessa substância.
No Brasil, o limite máximo é de 50 ppm para gasolina comum e 30 ppm para a premium. Em mercados mais rigorosos, como União Europeia e Estados Unidos, o padrão médio permitido é de 10 ppm. Já alguns países em desenvolvimento ainda aceitam níveis muito mais altos, chegando a 500 ppm.
A redução do enxofre na gasolina brasileira é considerada um avanço importante, pois contribui diretamente para a diminuição da poluição urbana e para a maior durabilidade dos sistemas de controle de emissões dos veículos.
Mistura obrigatória com etanol
A maior diferença da gasolina brasileira em relação ao resto do mundo está na mistura com etanol. Por lei, a gasolina no Brasil deve conter entre 22% e 27% de etanol anidro, percentual que pode chegar a 30%. Essa política surgiu nos anos 1970 para reduzir a dependência do petróleo importado e fortalecer a produção nacional, já que o Brasil é um dos maiores produtores de etanol do mundo.
A gasolina comum brasileira pode ser classificada como E30, enquanto a premium geralmente é E25. O etanol melhora a octanagem, substituindo aditivos tóxicos usados no passado, além de reduzir a concentração de substâncias nocivas como enxofre, benzeno e olefinas.
Hoje, mais de 70 países já adotam algum nível de mistura de etanol. Nos Estados Unidos e em vários países europeus, o padrão mais comum é o E10, enquanto o E20 começa a ser regulamentado em alguns mercados.
Aditivos obrigatórios e opcionais
No Brasil, além do etanol anidro, nenhum outro aditivo é obrigatório por lei na gasolina comum. Em outros países, porém, há exigências adicionais, que podem incluir detergentes para limpeza do sistema de injeção, antioxidantes para evitar degradação durante o armazenamento, anticorrosivos, agentes antiespuma e até corantes para diferenciação fiscal ou regulatória.
Já os combustíveis premium costumam incluir pacotes de aditivos voltados à proteção do motor, redução de desgaste e melhora do desempenho. Esses produtos prometem maior eficiência, menor consumo e maior vida útil dos componentes mecânicos.
Restrições ambientais e combustíveis especiais
Diversas regulamentações ambientais ao redor do mundo limitam substâncias tóxicas presentes na gasolina, como benzeno e compostos aromáticos. No Brasil e na União Europeia, o benzeno não pode ultrapassar 1% do volume total do combustível.
Um caso extremo é o da Califórnia, nos Estados Unidos, que possui regras próprias ainda mais rígidas. A chamada “gasolina CARB” tem especificações tão específicas que refinarias precisam produzir lotes exclusivos apenas para abastecer o estado, com foco máximo na redução de emissões.
Qualidade do combustível e cuidado ao abastecer
Independentemente de optar por gasolina comum ou premium, a procedência do combustível é fundamental. Abastecer em postos sem confiabilidade pode comprometer o motor, aumentar a poluição e gerar custos elevados de manutenção. Escolher fornecedores confiáveis garante melhor desempenho, maior durabilidade do veículo e menor impacto ambiental.
No fim das contas, as diferenças na gasolina ao redor do mundo mostram como leis, clima, tecnologia e políticas energéticas moldam o combustível que chega ao tanque do seu carro.
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